domingo, 9 de novembro de 2008

Nos primeiros erros

Estou hoje em minha casa de campo, lugar tão sonhado e conquistado. Normalmente venho somente nas férias, mas aqui estou, em pleno agosto, sentado olhando o tempo e esta grande casa. Casa cheia de boas lembranças, que trazem consigoalgo que me mata por dentro.
_ Papai, papai - gritava Júlia, o meu anjinho, a minha querida filha - Olha aqui esta flor!
_ Que linda! - falei
_ Vamos almoçar, gente.- Ouvi a bela voz de Duda vindo da cozinha, juntamente com aquele excelente cheiro da lasanha que ela trazia.
E era assim todo verão: a gente saía de São Paulo e ia para o campo. Eu tinha um ótimo cargo no Hospital das Clínicas, Duda trabalhava como promôter e a pequena Júlia estudava. Parecia tudo excelente e perfeito.
Chega mais um verão... malas prontas, pegamos a estrada, pois a casa não era muito perto.
Como de costume, na estrada nós cantamos e brincamos. Neste dia estava chovendo. Uma curva... um caminhão na contramão...
Acordei no hospital, dois dias depois, sem me lembrar de nada. Perguntei imediatamente sobre a Duda e Júlia. Havia ao meu lado um médico com um crachá: Dr. João Roberto.
_ Onde estou? Cadê minha mulher e minha filha? - perguntei meio sonolento.
_ O acidente. Não se lembra? - perguntou ele.
Voltam em minha cabeça a música, a chuva, o caminhão e o grito de Duda.
_ Me desculpe, mas...
Eu sabia o que ele iria dizer, pois já havia dito isto algumas vezes. A minha vida tinha acabado. Agora, nem sei o que fazer. Só consigo, em minha memória, ouvir a música com a Duda cantando, em sua última alegria: " Se um dia eu pudesse ver/ meu passado inteiro/ e fizesse parar de chover/ nos primeiros erros./ Meu corpo viraria sol/ minha mente viraria/ mas só chove/ chove e chove."


Texto escrito por: Higor Cirilo
1º ano D matutino - 2008

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