domingo, 1 de março de 2009
Produção escrita de texto
Situação de produção é uma expressão que tem sido associada ao ato de escrever na escola. Mas, o que quer dizer essa expressão? Por que ela vem substituindo outros modos de nomear as atividades escolares de produção de escrita? Uma primeira justificativa é o modo como se vê a escrita hoje. Ela é vista como um instrumento (ou ferramenta) de comunicação indispensável para a conquista da cidadania, que todos podem aprender, e não como um dom divino que só algumas pessoas recebem ao nascer. Conceber a escrita como instrumento nos leva a entender sua aprendizagem como um processo que gera produtos, os textos escritos. Essa primeira justificativa permite compreender o uso da palavra produção associada à palavra escrita. Uma segunda justificativa está ligada à palavra situação, que quer dizer, de acordo com o dicionário Houaiss, combinação ou concorrência de acontecimentos num dado momento. Para haver uma situação de produção escrita, é preciso que haja uma combinação de condições que se influenciam mutuamente. Uma dessas condições é o lugar de onde se escreve. Lugar, aqui, quer dizer tanto o lugar físico, como uma empresa jornalística ou um consultório médico, como lugar social, isto é, o lugar que ocupamos na sociedade no momento. Cada um de nós ocupa vários lugares sociais ao longo de um único dia: às vezes nos comunicamos do lugar profissional, então falamos com a linguagem específica de nossa profissão; às vezes falamos ou escrevemos para nossos familiares e usamos a linguagem adequada para essa situação específica; às vezes estamos conversando com nossos amigos em um bar e, mesmo que eles sejam nossos colegas de trabalho, a linguagem que usaremos nesse momento será mais informal. O lugar social de onde escrevemos é uma das condições que determina os gêneros de texto que usamos para nos comunicar quando escrevemos. Uma condição simultânea das situações de produção escrita é quem escreve, isto é, a pessoa que escreve em seu lugar social do momento: um jornalista, um romancista, uma filha, um advogado, uma pessoa que pretende um emprego, etc. De acordo com o lugar social ocupado no momento, a pessoa que escreve selecionará os gêneros adequados para comunicar-se. Um advogado, por exemplo, de seu lugar profissional, poderá escrever uma petição jurídica, uma comunicação interna para um colega do mesmo escritório, um bilhete para sua secretária pedindo que reorganize sua agenda e muitos outros gêneros próprios de sua profissão. Todos esses gêneros conterão o vocabulário próprio e o modo de dizer específico daqueles que trabalham com a justiça. A condição "quem escreve" (como se pode deduzir desses exemplos), está associada a outra condição, a razão pela qual se escreve. O motivo pelo qual escrevemos também é condição determinante para a escolha do gênero que iremos usar: se o advogado quer mudar a agenda, escreverá um bilhete para a secretária, se quer pedir a libertação de um preso ao sistema judiciário escreverá uma peça jurídica adequada para isso. Outra condição simultânea às anteriores é para quem se escreve: leitores de um jornal específico, clientes, alunos, empresários, amigos, etc. Um jornalista que escreve para um público leitor constituído de homens de negócio usará uma linguagem elaborada com termos econômicos; um jornalista que escreve para um jornal de esportes usará a linguagem corrente nos meios esportivos. Se alguém escreve uma tese, usará linguagem adequada para falar com os doutores da academia; se essa mesma pessoa estiver apaixonada e quiser escrever um poema de amor, usará uma linguagem lírica. Finalmente, soma-se a essas condições o veículo no qual o que escrevemos será publicado: o jornal, o receituário médico, o espaço do e-mail no computador, o quadro negro na sala de aula, etc. Tanto o ambiente onde esse veículo é produzido como seu formato físico são importantes condições para a produção escrita. Num jornal, por exemplo, os espaços são rigorosamente determinados e é preciso fazer a contagem do número de palavras, letras e sinais que serão usados. Num livro didático o espaço também é restrito, o que leva os autores, às vezes, a simplificar demasiadamente as idéias que querem transmitir. Ao escrever um romance, o autor tem maior liberdade com o tamanho e a forma do texto. Concluindo, podemos dizer que uma situação de produção de escrita é constituída de condições simultâneas e mutuamente influentes: quem escreve, de que lugar escreve, que gênero textual escreve, por que e para quem escreve e qual o veículo onde o texto
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